Entre,
Entre e tire minha razão.
Deixe a dor tomar o lugar
Da minha antiga paixão.
Deixe ela se alimentar...
Tire de mim a vontade,
Tire de mim qualquer necessidade.
Só me deixe lá no chão.
Me ponha num caixão,
Me enterre o mais longe.
Entre e me faça parar de sonhar.
Apague o brilho do meu olhar,
Me faça esquecer do mundo,
Me deixe afundar bem fundo
Nesse mar de nada.
Me deixe cair e bater no chão.
Me deixe quebrar ossos,
Me deixe cortar carnes,
Me deixe deixar de ser eu.
Eu não quero mais ser eu.
Eu não quero mais tentar ser
Qualquer coisa que exista pra ser.
Então entre e me consuma.
Entre e me mate, me desfigura.
Eu não quero mais ser.
Autora: Julia Niemeyer
4 comentários:
A construção do poema foi magnífica.
A cada estrofe a condição do indivíduo vai se deteriorando progressivamente e em larga escala, até o ponto em que o mesmo deixa de ser, se é que isto é realmente possível em termos práticos. Pelo menos se levarmos em conta que ser é sentir.
Eu acho esse verbo extraordinário. Sentir traduz, em sua essência, o nosso papel nesse mundo. Ou seriam os nossos pressupostos de existência? Bom, de um modo ou de outro, tudo na vida parece desaguar no mais puro ''sentir'', que aqui é tão especial, que adquire um puta sentido existencial sendo um verbo intransitivo, mas que também comportaria inimagináveis complementos se transitivo.
Ser e sentir. Taí uma reflexão interessante. =)
Obrigado por me inspirar mais uma vez.
Ps: Não comentei no seu último poema devido à minha absoluta ignorância na língua estrangeira em questão...
Nossa, não pensei que meus poemas pudessem ter interpretações decentes hahaha. Eu escrevo tão...sem preocupação, que eu penso que são só palavras e frases, nada mais.
ps: Você devia tentar entendê-lo. Não é difícil, é muito parecido com português e eu não sei muito de francês, então não é nada complexo.
De fato, quando se está na posição do escritor em si, fica difícil fazer uma construção frasal coerente pensando apenas no lado reflexivo das palavras... eu tento, mas não é fácil...
O mais curioso disso tudo é que, mesmo depois de concluído o corpo do poema, é possível dissecar e extrair muita coisa de bom dele.
Sim, vou fazer um esforço para compreender o poeminha em francês. =)
Você manda bem!
Sei lá, é impressão minha ou eu vejo uma certa tristeza nas coisas que escreve?!
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